Setimo Ano

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TEXTO DE APOIO
O SOFISTA GÓRGIAS

Não Ente

GÓRGIAS

Em primeiro lugar: nada é;

Em segundo, mesmo que algo fosse, não seria compreensível ao homem;

Em terceiro lugar, mesmo que houvesse algo compreensível, não seria comunicável e explicável aos outros.

Que nada é, demonstro-o desta forma: se de fato algo existe, ou é ser ou é não-ser, ou é ser e não-ser ao mesmo tempo.

Mas o não-ser não existe porque se o não-ser existisse, ele seria e não seria ao mesmo tempo.

De fato, pensado como não-ser, não existe, mas enquanto existente exatamente como não-ser, existe.

Mas é completamente absurdo que algo seja e não seja ao mesmo tempo; portanto, o não-ser não existe.

Nem sequer o ser existe.

Se de fato o ser existisse, ou é eterno ou é gerado, ou é eterno e gerado ao mesmo tempo.

Se o ser é eterno não tem princípio algum; não tendo princípio, é ilimitado; se é ilimitado, não está em lugar algum; se não está em lugar algum, não existe.

O ser, porém, não pode sequer ter nascido.

Se de fato nasceu, ou nasceu do ser ou do não-ser; mas não nasceu do ser se de fato existe; como ser não pode ter nascido, mas existe desde sempre.

E não nasceu nem sequer do não-ser, porque o não-ser não pode gerar coisa alguma; portanto, o ser nem é gerado e nem pode ser as duas coisas ao mesmo tempo, ou seja, eterno e gerado, pois as duas coisas se excluem mutuamente; portanto, se o ser não é eterno nem gerado nem todas as duas coisas ao mesmo tempo, ele não existe”.

Elogio de Helena

“A palavra é uma poderosa senhora que, embora dotada de um corpo muito pequeno e invisível, realiza as obras mais divinas; ela pode acabar com o temor, tirar a dor, suscitar a alegria e aumentar a compaixão. Quem a escuta é invadido por um calafrio de terror, por uma compaixão que arranca as lágrimas e deixa um ardente desejo de dor. Mas o fascínio divino que suscita a palavra é também geradora de prazer e pode liberar dor. A força da sedução, acompanhada da opinião da alma, a seduz e a persuade, e a transforma por meio de seu encanto”.

GÓRGIAS

PERGUNTA: O Não Ente é a única obra filosófica de Górgias que se conhece, mas Górgias foi também um grande orador, e entre suas obras há manuais de retórica e exemplos de discursos. Em um destes, O Encontro de Helena, Górgias tece um célebre elogio ao poder da palavra dominadora dos afetos e das paixões do homem. Que significado o senhor atribui a este elogio da arte retórica?

GADAMER*: Utilizei-me sempre deste elogio para mostrar que o sofista é o verdadeiro técnico. Os sofistas eram “técnicos do espírito”, grandes oradores e grandes argumentadores lógicos. Ufanos desta nova capacidade acreditavam que ela fosse tudo. Eles representavam o que para nós, em nossa sociedade, é o “monopólio do especialista”. Sócrates mostrou que o especialista não sabe o que é o bem. Defendo que também nós temos necessidade de uma racionalidade política e social dos valores. Neste sentido, os sofistas não são o mal, mas a sua prática manifesta-se limitada no que tange às suas pretensões, sobretudo quando ela é empregada no sentido que para nós assume o termo “sofística”, ou seja, quando se refere a argumentações que contrastam com o senso comum.

Através da retórica, a parte mais fraca numa disputa torna-se a mais forte, e nisso está presente uma degeneração do saber e do saber fazer, chegando ao ponto em que a prática do orador e do argumentador se torna um abuso. Sócrates, através de Platão, indicou-nos os riscos que se correm quando os homens não tomam em conta nas suas perguntas a responsabilidade a assumir quanto ao bem da humanidade no seu conjunto.

Entrevista de:

Prof. Hans Georg Gadamer

(concedidas à Enciclopedia Multimediale delle Scienze Filosofiche – RAI – Itália. Texto acessado por Internet: http://www.emsf.rai.it)

Trad do Prof. Selvino José Assmann – Depto. Filosofia – CFH-UFSC (http://www.cfh.ufsc.br/)