Deslocamentos no Pensamento Europeu do Século XV ao Século XVIII

 Do século XV ao século XVIII acontecem dois deslocamentos no pensamento humano na Europa. O primeiro é a passagem da especulação escolástica à filosofia da natureza. A natureza passa a ser entendida e explicada experimentalmente: “O que antes era visto como mero local de tentações para uma alma que aspirasse a recompensas noutro mundo, torna-se objeto de conhecimento científico. Em conseqüência, desenvolvem-se tentativas de estudo experimental dos fenômenos – esboçadas desde o século XIII nas Universidades de Paris e Oxford. Este tipo de investigação é que ganhará contornos definidos com os trabalhos científicos de Leonardo da Vinci (1452-1519) e de outros pensadores, a prenunciar a física de Galileu e Newton, desenvolvida no século XVII. Copérnico (1473-1543) formula a célebre teoria heliocêntrica. Tycho Brahe (1546-1601) prepara o caminho para a descoberta da lei da gravitação universal de Newton”[1]. A natureza, considerada pelo sobrenaturalismo da Idade Média como objeto de medo e de contemplação, torna-se objeto de estudo e de atuação do homem que procura modificá-la para que se adapte melhor às suas necessidades. Surgem, para isso, métodos mais empíricos e precisos, como mencionado acima. Este fenômeno se dá com a ascensão da burguesia, na forma de capitalismo mercantilista. O segundo deslocamento se dá quando se passa da análise da natureza para a análise da sociedade. Percebe-se, então, que a organização da sociedade não é natural, mas histórica. Questionam-se, filosoficamente, os fundamentos da sociedade a partir da ótica da nova ordem burguesa. É uma crítica ao poder absoluto, no qual Deus criava, organizava e geria o mundo através da Igreja e de suas leituras da realidade. É de se notar: Descartes (1596-1650) descobre o sujeito pensante autônomo, coloca a consciência como a medida e a forma do ser, marcando uma definitiva virada antropocêntrica[3]. De outro lado, o empirismo inglês do século XVII, representado especialmente por T. Hobbes (1588-1679) e J. Locke (1632-1704), é responsável por uma nova abordagem da questão política. Hobbes e Locke viveram intensamente o processo de consolidação do poder político da burguesia inglesa. Como tão bem explica Tiago Adão Lara, “ao terminar o século XVII, estavam consolidadas as duas correntes modernas de pensamento”, o racionalismo e o empirismo. “O Estado substitui a Igreja, na tarefa de marcar os limites da racionalidade, para a convivência humana (…) Nesta sociedade, desvinculada da Igreja, embora ainda religiosa, não é mais à teologia que se vai pedir a última palavra a respeito dos princípios supremos da moralidade e da política, mas, sim, à filosofia, enquanto produção da razão humana. E a filosofia inovava e abria horizontes mais largos. O empirismo rompia com as barreiras tradicionais da cultura. Não era mais a partir do alto, do mundo das essências, mas a partir de baixo, do mundo dos fatos ou dos fenômenos que se devia construir algo de positivo. O Estado, concebido pelo empirismo, é criatura humana, fruto da convenção, destituído de sacralidade, religiosa ou profana. É o próprio homem que dá as cartas de leitura da sua existência e do mundo que o cerca. O homem torna-se, realmente, a medida do seu mundo significativo”[4].

Fonte: http://www.airtonjo.com/socio_antropologico.htm

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